A China ampliou em julho sua infraestrutura financeira na África para permitir que operações comerciais entre empresas chinesas e africanas sejam feitas em moedas locais e em yuan, sem a necessidade de usar o dólar como intermediário. A medida fortalece a presença financeira chinesa no continente, mas o uso da moeda chinesa ainda é pequeno no comércio global e a desdolarização permanece distante.
No fim de junho, o Banco Central da China autorizou o pagamento direto em yuan pelo Standard Bank, maior grupo bancário da África, sediado na África do Sul. A operação ocorre em parceria com o Banco Industrial e Comercial da China, o ICBC, e permite que empresas façam e recebam pagamentos em renminbi nas liquidações comerciais entre os dois lados.
O Standard Bank atua em 21 países africanos. A mudança cria uma rota financeira mais direta para negócios com a China, principal parceira comercial do continente. Entre 2000 e 2024, o comércio entre a China e a África cresceu, em média, 14% ao ano. A relação tende a ganhar novo impulso após a decisão chinesa de isentar, a partir de 1º de maio, tarifas de importação sobre produtos africanos.
Apesar do avanço, o yuan ainda ocupa posição limitada nas transações internacionais. A moeda chinesa responde por cerca de 8,5% das operações globais de comércio e aparece atrás das principais moedas usadas no mercado financeiro. Energia, alimentos e outras commodities continuam majoritariamente negociados em dólar, o que mantém a moeda norte-americana como referência central do comércio mundial.
A estratégia chinesa ocorre em meio ao debate sobre a redução da dependência do dólar, uma das pautas de países do Brics e de outras economias do Sul Global. A hegemonia da moeda dos Estados Unidos dá a Washington influência sobre fluxos financeiros, sanções, embargos e custos internacionais de crédito. Quando os juros norte-americanos sobem, moedas de países pobres tendem a se desvalorizar, o que encarece importações de alimentos, energia e insumos.
Mesmo assim, Pequim não demonstra interesse em uma substituição rápida do dólar pelo yuan. A China mantém grandes reservas em dólar e evita uma abertura ampla de sua conta de capitais, o que limita a internacionalização da moeda chinesa. Uma mudança acelerada poderia gerar perdas para o Estado chinês e para empresas do país, além de expor o sistema financeiro da China a oscilações do mercado global.
Entre as alternativas em discussão está a criação de uma nova unidade de conta para o comércio internacional, formada por uma cesta de moedas de países do Brics e de outras nações do Sul Global. A proposta busca ampliar as opções de liquidação financeira sem transferir automaticamente ao yuan o papel hoje ocupado pelo dólar.
A ampliação dos pagamentos em yuan na África funciona, por enquanto, como uma etapa de preparação. A China constrói canais financeiros próprios, fortalece sua relação comercial com o continente e reduz custos de intermediação em dólar, mas ainda atua de forma gradual para evitar choques cambiais e preservar a competitividade de suas exportações.







