Grupo ligado a Daniel Vorcaro acessou dados sigilosos do MPF e tinha informações da PF e da Interpol

Um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teve acesso a informações protegidas por sigilo em sistemas do Ministério Público Federal (MPF) e é investigado por obter dados restritos da Polícia Federal e de organismos internacionais, como FBI e Interpol. As suspeitas aparecem em relatórios da PF enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e em documentos das investigações sobre o Banco Master que tiveram o sigilo retirado.

Um dos principais nomes apontados no esquema é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário” e identificado como Felipe Mourão em mensagens analisadas pelos investigadores. Ele teria feito consultas a sistemas internos e encaminhado resultados diretamente a Vorcaro, inclusive documentos relacionados a investigações sigilosas.

Em uma busca realizada em julho de 2024 com o CPF de Vorcaro, foram encontrados 15 procedimentos relacionados ao ex-banqueiro. Onze deles estavam sob sigilo. A consulta apareceu registrada no login funcional de um servidor do MPF.

A investigação ainda tenta esclarecer se os próprios servidores fizeram as consultas, se forneceram suas credenciais a terceiros ou se as contas foram utilizadas sem conhecimento dos titulares. O relatório não atribui automaticamente participação consciente aos funcionários cujos logins aparecem nos registros.

Em outra troca de mensagens, Mourão afirmou que estava com “acesso total e ilimitado” aos sistemas do MPF e perguntou quais documentos Vorcaro queria receber. O ex-banqueiro respondeu que queria todos. Em julho de 2025, após uma consulta feita com os termos “BRB AND MASTER”, Vorcaro escreveu: “Quero tudo. Atenção total”.

Os investigadores também apuram um episódio envolvendo um helicóptero que teria sobrevoado por cerca de 40 minutos a residência de Vorcaro na Bahia, em janeiro de 2025. Após receber a imagem da aeronave, Mourão teria preparado um documento com brasão e identificação do MPF, classificado como urgente e sigiloso, para solicitar a uma empresa de aviação informações sobre o contratante, os voos e possíveis passageiros.

O documento não continha assinatura digital nem manuscrita. Dias depois, Mourão encaminhou uma resposta atribuída à empresa aérea com informações sobre os voos. Para a PF, o material aponta que a requisição chegou a ser enviada, embora as páginas analisadas não tragam confirmação do MPF sobre a autenticidade do ofício.

As apurações sobre a estrutura ligada a Vorcaro também alcançaram sistemas da própria Polícia Federal e bases utilizadas por organismos internacionais. Em decisão que embasou a prisão do ex-banqueiro em março de 2026, o ministro André Mendonça citou indícios de uso de credenciais funcionais de terceiros para obter informações protegidas da PF, do MPF, do FBI e da Interpol.

Mourão integraria o núcleo conhecido como “A Turma”, investigado por monitorar pessoas consideradas adversárias dos interesses ligados ao Banco Master. O grupo também é suspeito de produzir dossiês, intimidar pessoas e tentar obter informações antecipadas sobre investigações. Mourão morreu após ser preso pela Polícia Federal em março.

A defesa de Vorcaro já negou as acusações de tentativa de obstrução das investigações e afirmou que o ex-banqueiro sempre esteve à disposição das autoridades. As circunstâncias dos acessos aos sistemas públicos e a eventual participação de servidores continuam sob investigação.

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