Acre: o Estado que mais cresceu em 2023 e empobrece a própria gente

PIB de R$ 26,3 bi e alta de 14,7%, mas 45,9% da população abaixo da linha da pobreza; 44 mil vivem com R$ 2,60 por dia, e o déficit da previdência supera R$ 17,6 bi

O Acre foi o Estado que mais cresceu em 2023, segundo o IBGE, e, ao mesmo tempo, um dos que concentram maior parcela da população abaixo da linha da pobreza. Em 2024, 45,9% dos acreanos estavam nessa condição. Entre os 5% mais pobres, a renda equivalia a apenas R$ 2,60 por dia. São cerca de 44 mil pessoas vivendo com menos de R$ 80 por mês.

Há outra conta, menos visível no cotidiano, mas que acompanha o Estado no futuro: o déficit atuarial da AcrePrevidência supera R$ 17,6 bilhões, segundo as avaliações atuariais oficiais do instituto. O valor corresponde a cerca de dois terços de tudo o que o Acre produz em um ano. O déficit financeiro anual, que era de R$ 85 milhões em 2015, chegou a R$ 1,05 bilhão em 2025, em dado preliminar, e tem projeção oficial de R$ 1,14 bilhão para 2026.

A terceira contradição está na violência. Em 2025, o Acre registrou 14 feminicídios, em dados preliminares, o menor número absoluto entre os Estados brasileiros, mas apresentou a maior taxa do País: 3,2 mortes por 100 mil mulheres, mais que o dobro da média nacional, de 1,43.

Tudo isso acontece em um Estado cuja economia também avançou. Em 2023, o PIB do Acre cresceu 14,7%, o maior índice do País naquele ano, segundo o Sistema de Contas Regionais do IBGE, e chegou a R$ 26,3 bilhões. A agropecuária avançou 16,3% naquele ano e ajudou a sustentar o resultado.

A conta que não aparece no PIB

O crescimento econômico é real, mas seus efeitos não chegam de maneira uniforme à população. Em 2025, o rendimento domiciliar per capita do Acre chegou a R$ 1.392, contra R$ 2.316 na média brasileira, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Uma diferença de quase R$ 1 mil por mês por pessoa.

Entre os mais pobres, a distância é ainda maior. Os 5% de menor renda vivem com cerca de R$ 2,60 por dia. A segunda faixa mais pobre dispõe de aproximadamente R$ 6,81 diários. A terceira chega a apenas R$ 9,23 por dia.

Sem o Bolsa Família, os 5% mais pobres teriam renda per capita igual a zero. Na faixa seguinte, a renda seria de apenas R$ 0,11 por mês. Somadas, as duas faixas reúnem aproximadamente 88 mil pessoas, cerca de 10% da população.

O Bolsa Família movimentou mais de R$ 1,1 bilhão no Acre em 2025 e alcançou 124.826 famílias nos 22 municípios, com benefício médio de R$ 732,98, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

A extrema pobreza também permanece elevada. Em 2023, atingia 13,2% da população do Estado, contra 4,4% na média nacional.

A educação acrescenta outra camada ao retrato. O analfabetismo alcança 8,9% dos acreanos com 15 anos ou mais, quase o dobro da média brasileira, de 4,9%. São cerca de 57 mil pessoas que não sabem ler e escrever.

Crescimento que não vira emprego

O problema aparece com ainda mais nitidez entre os jovens. Trinta por cento dos acreanos de 15 a 29 anos não estudam nem trabalham. São aproximadamente 75 mil pessoas nessa situação, o maior percentual do País.

No mercado de trabalho, o número de ocupados é de 333 mil. Mas 152 mil trabalham na informalidade. São 45,6% dos ocupados. O emprego formal privado reúne cerca de 107 mil pessoas.

O desemprego caiu para 6,4% em 2024, o menor nível da série histórica. A melhora convive, porém, com uma estrutura de trabalho em que quase metade dos ocupados permanece na informalidade.

O contraste aparece também na produção. A soja dobrou de um ano para outro, passando de 22,7 mil para 45,7 mil toneladas, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE. O setor que ajudou a puxar o crescimento, porém, criou apenas 181 empregos formais.

É um dos números que melhor resumem a economia acreana: a produção cresce, mas a capacidade de transformar esse avanço em empregos formais cresce em ritmo muito menor.

A previdência como conta do futuro

A estrutura econômica continua fortemente dependente do setor público. A administração pública representa 38,5% do PIB. Cerca de 68% das receitas do Estado vêm de transferências de Brasília, segundo o Tesouro Nacional.

A despesa com pessoal do Executivo alcança 47,99% da receita corrente líquida, acima do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal.

A dívida líquida, por outro lado, equivale a 13,16% da receita corrente líquida, abaixo do limite legal. O problema fiscal mais pesado está concentrado na previdência.

O déficit financeiro previdenciário passou de R$ 85 milhões em 2015 para R$ 700 milhões em 2021 e R$ 1,05 bilhão em 2025, em dado preliminar. Para 2026, a projeção oficial é de R$ 1,14 bilhão. As receitas previdenciárias previstas, de R$ 713,7 milhões, cobririam apenas 38,6% das despesas estimadas em R$ 1,85 bilhão.

O passivo atuarial supera R$ 17,6 bilhões. As avaliações atuariais oficiais da AcrePrevidência dimensionam o desequilíbrio de longo prazo do regime.

Na segurança pública, os números contam outra história. O Acre reduziu de forma expressiva os homicídios nos últimos anos. Em 2024, registrou 168 assassinatos e uma taxa de homicídios de 17,71 por 100 mil habitantes, o menor patamar em 16 anos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Menos homicídios, mais feminicídios

Na violência contra a mulher, o quadro é diferente.

O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, em dados preliminares. No Acre, foram 14 casos. O número absoluto é pequeno em comparação com Estados mais populosos, mas a taxa de 3,2 por 100 mil mulheres colocou o Estado no primeiro lugar nacional. A média brasileira foi de 1,43.

A diferença entre números absolutos e taxas é importante. São 14 mortes, mas, proporcionalmente à população feminina, o indicador alcançou o maior nível do País.

O quadro da proteção também chama atenção. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nove em cada dez vítimas de feminicídio na Amazônia Legal não tinham medida protetiva no momento do crime. Em todo o Brasil, 13% das vítimas foram assassinadas mesmo com medida protetiva de urgência vigente.

A economia do Estado ainda enfrenta problemas de infraestrutura. Menos de 40% da população tem acesso à coleta de esgoto. As perdas de água tratada chegam a 62,25%, contra 40,31% na média nacional, segundo o SNIS.

O clima acrescenta outra pressão. Os 22 municípios do Acre tiveram situação de emergência por seca reconhecida pela União, segundo a Defesa Civil Nacional. A estiagem ameaça parcela relevante da produção agropecuária, justamente um dos setores que ajudaram a sustentar o crescimento.

O limite do crescimento

Há, ao mesmo tempo, indicadores positivos. O Acre lidera a Região Norte no Ideb do ensino fundamental, com 6,45 nos anos iniciais e 5,16 nos anos finais, segundo o INEP. Na saúde, a mortalidade infantil caiu 40% nos últimos anos.

Mas o conjunto dos números mostra um Estado de contrastes.

De um lado, PIB em expansão, produção agrícola crescendo, exportações em recorde histórico (US$ 98,9 milhões em 2025, alta de 13,3% sobre 2024, segundo a Secex/MDIC) e queda histórica do desemprego. De outro, quase metade da população abaixo da linha da pobreza, 75 mil jovens sem estudar nem trabalhar, quase metade dos ocupados na informalidade e uma renda domiciliar per capita de R$ 1.392.

No meio dessas duas realidades está o Estado: responsável por parcela expressiva da economia, dependente das transferências federais e diante de um passivo previdenciário superior a R$ 17,6 bilhões.

É esse o Estado que estará diante do próximo governador: uma economia que cresceu, mas ainda convive com pobreza em escala elevada; uma estrutura produtiva que se expande sem absorver trabalhadores na mesma proporção; uma máquina pública que sustenta parte importante da atividade econômica; e uma previdência cujo passivo atuarial já supera dois terços do PIB estadual.

O crescimento existe. A questão que os números deixam aberta é outra: quanto desse crescimento chega à população que mais precisa dele?

Texto: Chico Araújo

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