No último dia à frente da Prefeitura de Rio Branco, o prefeito Tião Bocalom (PSDB) transformou a prestação de contas da gestão em um ato político de despedida, com recados sobre o futuro e o discurso de que encerra o mandato deixando obras em execução, recursos garantidos e um modelo de administração que pretende levar para a próxima campanha. Na quinta-feira (2), durante o evento que reuniu autoridades, servidores e lideranças comunitárias, Bocalom afirmou que sai “com a consciência tranquila” e “de cabeça erguida”, ao sustentar que entregará a prefeitura com R$ 155 milhões em caixa e um pacote de investimentos que, segundo ele, ultrapassa meio bilhão de reais em projetos e contratos.
Ao defender o balanço dos cinco anos de governo municipal, o prefeito repetiu a tese de que “o dinheiro dá” quando a administração controla gastos e combate desvios, frase que virou marca de suas campanhas e voltou ao centro do discurso ao tratar do caixa e do volume de obras anunciadas. “Encerramos esse período com a consciência tranquila e a certeza do dever cumprido. Trabalhamos com responsabilidade e estamos deixando a Prefeitura estruturada, com muitos projetos em andamento e recursos garantidos para dar continuidade às obras”, disse. Em outra fala, resumiu a avaliação do próprio mandato: “Aquilo que eu propus fazer para Rio Branco, eu fiz. Não consegui fazer tudo, mas nós melhoramos demais”.
A narrativa construída por Bocalom também mirou o terreno eleitoral. Em declarações feitas ao longo do dia, ele tratou a saída do cargo como parte de um “novo desafio político” e buscou associar o fim do mandato a uma vitrine de realizações. “Claro que eu não resolvi todos os problemas, mas tenho certeza que a nossa cidade hoje está bem diferente de antes”, afirmou, ao comentar mudanças na zona urbana e rural. A agenda de despedida incluiu compromissos públicos e a ênfase em entregas, como inaugurações, num esforço para marcar o encerramento da gestão com imagens de obra concluída e serviços em funcionamento.
O pacote apresentado na prestação de contas reforçou esse roteiro. Bocalom citou a contratação de 2.277 unidades habitacionais em parceria com a Caixa, investimentos em pontes de alvenaria e melhorias em vias na zona rural, além de intervenções urbanas e ações em educação e saúde. No transporte coletivo, anunciou convênio para compra de 51 ônibus, seis elétricos e 45 a combustão, além de três carregadores, com previsão de incorporar os veículos até o fim de 2026 — um calendário que coincide com a eleição estadual e amplia o peso político do anúncio.
No entorno do prefeito, aliados também ocuparam espaço para sinalizar continuidade. O vice-prefeito Alysson Bestene (PP), que assume a prefeitura, disse que manterá o planejamento e citou entregas previstas para os próximos meses, como obras de infraestrutura, unidades de educação e a reforma do mercado municipal. A transição foi tratada como parte da estratégia para preservar o legado administrativo apresentado por Bocalom e sustentar o discurso de estabilidade enquanto o ex-prefeito entra de vez no tabuleiro eleitoral.
A movimentação de quinta-feira expôs ainda a articulação partidária em torno de 2026, com Bocalom defendendo renovação de quadros e ampliando conversas sobre chapas proporcionais. Em paralelo, o ambiente político do dia teve sinais de reaproximações e acenos entre grupos que buscam composição para a eleição estadual. Com a renúncia e a transmissão definitiva do cargo, o ex-prefeito passa a testar, fora da máquina municipal, a força do argumento que repetiu no palco: deixar caixa, obras e contratos em andamento como credencial para pedir um mandato maior — agora com a promessa de expandir o modelo para todo o Acre.








