Cármen Lúcia diz que crise de confiança no Judiciário é grave e cobra reconhecimento do problema

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta sexta-feira, 17 de abril de 2026, que a crise de confiança no Judiciário “é séria” e precisa ser reconhecida, ao falar com estudantes de direito da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro. “A crise de confiabilidade é séria, grave e precisa de ser reconhecida, e não apenas por nós, juízes e juízas”, disse a ministra. Ela também afirmou que quer ver jovens interessados em seguir a carreira, mas ressaltou as dificuldades do cargo: “Queremos que os jovens queiram ser juízes. Não é porque é fácil, não é. É muito difícil. Tive mais momentos de alegria como advogada do que 20 anos como juíza”.

Mais cedo, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, também tratou do tema em palestra na FGV, em São Paulo, ao dizer que a Corte está “imers[a] em uma crise institucional” e que o cenário precisa ser enfrentado. Fachin citou “desconfiança institucional” e “intensa polarização” e afirmou que, quando um juiz parece atuar como agente político disfarçado de intérprete jurídico, a confiança pública se perde.

As declarações ocorrem em meio ao agravamento de tensões internas no Supremo após movimentos no Senado ligados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado. Nesta semana, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) tentou incluir no relatório final o pedido de indiciamento dos ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, episódio que ampliou o desgaste na Corte.

O relatório acabou rejeitado pela CPI em 14 de abril, por 6 votos a 4, encerrando os trabalhos sem documento final. Antes da votação, o presidente da comissão, senador Fabiano Contarato (PT-ES), criticou a decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de não prorrogar a CPI e também afirmou que decisões do STF dificultaram oitivas e acesso a informações. Contarato se posicionou contra os indiciamentos, incluindo o do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e disse que “o ato de indiciamento é um ato de grande responsabilidade”. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), também criticou o foco do relatório e afirmou que CPI “não é” espaço de disputa política.

A crise ganhou novos capítulos com investigações envolvendo o Banco Master. Em fevereiro, Toffoli deixou a relatoria de um inquérito sobre fraudes após reconhecer que é sócio do resort Tayayá, comprado por um fundo de investimentos que pertenceu ao Master e é investigado pela Polícia Federal. Em março, Moraes negou ter mantido conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco, na data em que o empresário foi preso na primeira fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes na instituição.

Com a cúpula do Supremo admitindo publicamente a crise de confiança e a CPI encerrada sem relatório, a tendência é de prolongamento do embate institucional, com novos desdobramentos a depender do avanço das apurações ligadas ao Banco Master e de iniciativas políticas no Congresso que mantenham o STF no centro da disputa pública.

 

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