ANTÔNIO KLEMER*
A relação entre juízes (especialmente ministros do STF) e partidos políticos já está sendo refletida nas pesquisas de opinião deste ano eleitoral de 2026, e os dados apontam impactos mensuráveis — embora limitados e polarizados — na disputa presidencial e, potencialmente, nas eleições para Senado e Câmara.
O que as pesquisas mostram sobre confiança e percepção
Levantamentos recentes capturam o desgaste institucional em tempo real:
Pesquisa Quaest (10 a 13 de setembro de 2026, 2.004 entrevistas): 56% dos brasileiros afirmam “não confiar” no STF (alta de 10 pontos em relação a agosto). Apenas 9% dizem confiar muito e 30% confiam pouco. A desconfiança subiu em quase todos os grupos, com destaque para independentes (de 50% para 65%). Entre bolsonaristas permanece elevada (69%), e entre lulistas chegou a 30%.
oglobo.globo
A mesma Quaest aponta que 68% defendem novas regras para nomeação de ministros e 53% apoiam mandatos fixos e código de ética para a Corte.
Globo
Pesquisa Indexa/Broadcast (mesmo período): 45% desconfiam do STF; 46% atribuem a responsabilidade principal da crise a Alexandre de Moraes e 16% a André Mendonça. 77% favoráveis (total ou parcialmente) à abertura de processo de impeachment contra ministros envolvidos.
Cnnbrasil
Esses números refletem a percepção de que a atuação de magistrados extrapola o técnico e se aproxima de interesses partidários ou políticos, alimentada pela crise interna (caso Banco Master, mensagens atribuídas a Moraes, decisões cruzadas de Mendonça e Dino, intervenção de Fachin).
Impacto nas eleições de 2026
Presidência: A maioria dos eleitores (67% na Quaest) afirma que a crise no STF não influencia o voto para presidente. Outros 22% dizem que reforça a escolha já feita e apenas 7% admitem considerar mudança de candidato. Isso indica que a polarização pré-existente absorve boa parte do efeito.
Globo
No entanto, a percepção de prejuízo é assimétrica. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg (11 a 16 de setembro) mostra que 49,5% dos entrevistados avaliam que a crise prejudica mais a candidatura de Lula, contra 20,9% que veem maior impacto sobre Flávio Bolsonaro. A disputa permanece acirrada (Lula 44,1% x Flávio 41,7% no 1º turno, segundo o mesmo instituto).
Exame
Senado e Câmara: O tema tem potencial mais direto. Propostas de reforma do Judiciário (mandatos para ministros do STF, mudanças no sistema de indicação, limitação de decisões monocráticas) ganharam tração no Congresso em meio à crise. Candidatos ao Senado e à Câmara que defendem ou criticam abertamente o “ativismo judicial” ou a “politização da toga” podem capitalizar o sentimento de desconfiança, especialmente entre independentes e eleitores de direita. Oposição já articula impeachment e PECs; base governista monitora o desgaste.
Por que a relação juízes-partidos importa agora
Ministros do STF não são eleitos, mas suas decisões (suspensão de leis aprovadas pelo Congresso, intervenções em mandatos parlamentares, condução de investigações sensíveis) e trajetórias pessoais (passagens por cargos políticos ou indicação por governos de determinado espectro) alimentam a leitura de parcialidade. Em ano eleitoral, isso se traduz em:
Reforço de narrativas de campanha (“voto em X é voto em Moraes” ou defesa da independência judicial).
Pressão por reformas que podem virar plataforma de candidatos a Senado e Câmara.
Efeito indireto sobre a confiança nas instituições, que influencia abstenção, voto de protesto e comportamento de indecisos.
Em resumo: as pesquisas já medem e refletem a relação juízes-partidos. O impacto direto no voto presidencial parece contido pela polarização, mas o tema está no centro do debate institucional e pode pesar mais nas disputas proporcionais e no Senado, onde a pauta de freios ao Judiciário encontra terreno fértil. O eleitor está atento — e os candidatos também.
*Jornalista Político







