Profissionais da Engeplus Engenharia chegaram a Rodrigues Alves na segunda-feira, 20 de julho, para iniciar os levantamentos técnicos que definirão o projeto da ponte sobre o Rio Juruá e do contorno rodoviário do município. A equipe foi recebida pelo prefeito Salatiel Magalhães no começo de uma etapa que envolve estudos do terreno, do solo, dos impactos ambientais e das condições necessárias para construir os acessos e a estrutura. A presença dos técnicos representa um avanço no processo administrativo, mas ainda não significa o início da obra.
A empresa faz parte do consórcio Engeplus–Projecta, contratado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes para elaborar os estudos preliminares e os projetos básico e executivo. Esse trabalho deverá estabelecer onde a ponte será construída, qual será o traçado dos acessos, que tipo de fundação poderá suportar a estrutura e quais intervenções serão necessárias para ligar a travessia à malha rodoviária.
Nesta primeira fase, os profissionais deverão realizar levantamentos topográficos, estudos geológicos, análises ambientais e outras avaliações técnicas. São informações necessárias para calcular as dimensões da ponte, os custos da futura construção e as condições de execução da obra. A Prefeitura de Rodrigues Alves informou que prestará apoio logístico à equipe durante os trabalhos de campo.
“Receber a equipe da Engeplus Engenharia em Rodrigues Alves representa mais um passo importante rumo à realização de um sonho histórico da nossa população”, afirmou Salatiel.
O contrato nº 168/2026 foi assinado pelo DNIT em 5 de maio pelo valor de R$ 1.997.005,87. O consórcio responsável pelo serviço é formado pela Engeplus Engenharia e Consultoria, que lidera o grupo, e pela Projecta – Projetos e Consultoria. A vigência contratual termina em 16 de julho de 2027.
O prazo do contrato, porém, não deve ser confundido com uma data para a conclusão da ponte. O documento abrange apenas os estudos e a elaboração dos projetos. Depois que o material for entregue, o DNIT ainda precisará analisar e aprovar os documentos, garantir recursos para a construção e abrir uma nova licitação para contratar a empresa que executará a obra.
Essa diferença é central para compreender o momento atual. A chegada dos técnicos coloca profissionais no campo, transforma previsões em medições e permite que o governo conheça as condições reais da travessia. Ainda assim, as máquinas que poderão construir a ponte dependerão de outra contratação pública.
A reivindicação atravessa diferentes administrações e ganhou novos obstáculos quando a ponte foi vinculada ao projeto da estrada entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru. O Edital nº 130/2021 do DNIT reuniu a travessia do Rio Juruá e a ligação rodoviária internacional em um mesmo processo.
A estrada até a fronteira peruana passou a enfrentar questionamentos judiciais e ambientais. Organizações indígenas, indigenistas, ambientalistas e extrativistas contestaram a ausência de estudos de viabilidade e de consulta prévia aos povos indígenas que poderiam ser afetados pelo empreendimento.
Em junho, durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, Salatiel criticou a decisão de manter a ponte presa ao mesmo processo da ligação internacional. Para o prefeito, uma obra destinada a resolver um problema cotidiano de Rodrigues Alves e dos demais municípios do Vale do Juruá não deveria ter avançado no mesmo ritmo de um projeto mais amplo, complexo e cercado por disputas ambientais e territoriais.
“Já tinha um projeto de uma ponte feito. Então por que não pegaram esse projeto e botaram ele para execução separadamente?”, questionou o prefeito.
A declaração expressa a cobrança política pela separação dos dois empreendimentos. A ponte atende uma demanda local imediata, enquanto a estrada até Pucallpa envolve outra escala de impactos, investimentos e discussões. Ao colocar os projetos no mesmo edital, o andamento da travessia ficou sujeito aos conflitos provocados pela rota internacional.
As organizações responsáveis pela ação judicial afirmaram que não eram contrárias à construção da ponte. O pedido apresentado à Justiça buscava interromper o processo relacionado à estrada e, ao mesmo tempo, preservar a possibilidade de o governo federal avançar separadamente com a travessia sobre o Rio Juruá.
A Justiça Federal não autorizou o aproveitamento da licitação questionada. A decisão, no entanto, deixou aberta a possibilidade de uma contratação específica para os estudos da ponte, sem a vinculação com a estrada internacional. O DNIT adotou posteriormente esse caminho ao contratar o consórcio Engeplus–Projecta.
A nova contratação rompe, na prática, a dependência administrativa que manteve a ponte ligada ao projeto entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa. Os estudos iniciados agora tratam diretamente da travessia e do contorno rodoviário de Rodrigues Alves. Isso não elimina as etapas burocráticas, ambientais e financeiras que ainda virão, mas impede que o projeto local permaneça paralisado pelos mesmos conflitos da ligação internacional.
Atualmente, moradores de Rodrigues Alves dependem da balsa para atravessar o Rio Juruá e chegar a Cruzeiro do Sul, onde estão concentrados serviços públicos, unidades de saúde, instituições de ensino e parte importante do comércio regional. A travessia também faz parte da rotina de produtores que precisam transportar mercadorias e de comerciantes que recebem produtos vindos de outros municípios.
A balsa cumpre uma função essencial, mas mantém a mobilidade condicionada ao transporte fluvial. Filas, interrupções, manutenção das embarcações e mudanças no nível do rio podem interferir no deslocamento. Para quem precisa atravessar diariamente, a ponte não representa apenas uma obra de concreto sobre o Juruá. Ela significa previsibilidade para chegar ao trabalho, transportar uma produção, buscar atendimento médico ou cumprir um compromisso sem depender das condições da travessia.
Salatiel afirmou que a estrutura atenderá não apenas Rodrigues Alves, mas o conjunto dos municípios do Vale do Juruá. A avaliação considera que a ponte poderá melhorar a circulação regional e reduzir um dos pontos de interrupção do transporte terrestre entre os municípios.
O avanço iniciado nesta semana ainda está distante da inauguração esperada pelos moradores. Antes da construção, os técnicos precisarão transformar o terreno, o curso do rio e as condições ambientais em cálculos, plantas e especificações. O governo federal terá depois de transformar esses projetos em orçamento, licitação e obra.
A chegada da equipe da Engeplus–Projecta marca a retomada de um projeto que passou anos entre editais, questionamentos judiciais e cobranças políticas. É um passo concreto, mas ainda preliminar. A ponte só deixará de ser uma promessa quando os projetos forem concluídos, os recursos estiverem garantidos e uma nova empresa for contratada para erguer a estrutura. Até lá, a população de Rodrigues Alves continuará atravessando o Rio Juruá pela balsa enquanto acompanha, mais uma vez, o caminho administrativo da obra.







