Queimadas avançam na Amazônia, provocam crise de poluição em Manaus e acendem alerta no Acre

O avanço das queimadas na Amazônia já afeta a rotina de milhares de moradores da região Norte. Em Manaus, a fumaça dos incêndios florestais provocou a suspensão de aulas e de atividades presenciais em órgãos públicos, enquanto autoridades recomendam medidas de proteção contra a poluição. O problema ocorre em meio ao crescimento de 74% nos focos de calor no bioma amazônico em setembro de 2026. No Acre, o mesmo mês concentrou 60% de todas as ocorrências registradas no estado desde o início do ano.

A capital amazonense chegou ao terceiro dia consecutivo encoberta por fumaça neste sábado (10). A concentração de poluentes atingiu níveis considerados prejudiciais à saúde, comprometendo a qualidade do ar e levando escolas, universidades e repartições públicas a interromperem atividades presenciais.

Na sexta-feira (9), Manaus registrou o pior índice de qualidade do ar entre as cidades brasileiras acompanhadas pela plataforma internacional IQAir. O indicador chegou a 366 pontos, classificação considerada perigosa, com concentração de partículas finas PM2,5 de 258,2 microgramas por metro cúbico.

A dimensão do problema também apareceu em imagens de satélites da Nasa. Os registros mostram uma extensa camada de fumaça sobre Manaus e outras áreas do Amazonas, resultado dos incêndios que atingem municípios do interior. Transportada pelos ventos, a poluição ultrapassa os limites das áreas queimadas e pode alcançar localidades distantes dos focos de incêndio.

O Amazonas está entre os estados que apresentaram maior crescimento das queimadas em setembro. Foram 3.726 focos de calor, contra 942 no mesmo mês de 2025, aumento de aproximadamente 296%. No Pará, os registros passaram de 2.967 para 5.224, crescimento de 76%. Rondônia também apresentou alta, passando de 388 para 515 ocorrências, uma elevação de 33%.

No conjunto do bioma Amazônia, o número de focos passou de 7.211 em setembro de 2025 para 12.562 no mesmo mês de 2026. Embora o resultado esteja abaixo dos períodos mais críticos da série histórica, a alta em relação ao ano passado mostra a intensificação das queimadas durante a estação seca.

No Acre, setembro terminou com 877 focos de calor, crescimento de 80% em comparação com agosto, quando foram contabilizadas 487 ocorrências. Em relação a setembro do ano passado, quando houve 840 registros, a alta foi de 4,4%.

Os números mostram que a maior parte das queimadas acreanas ocorreu nos últimos dois meses. Entre janeiro e setembro, o estado acumulou 1.461 focos, dos quais 1.364 foram registrados somente em agosto e setembro, o equivalente a 93,4% do total.

Feijó e Tarauacá aparecem como os municípios mais afetados no levantamento de setembro, com 165 e 153 focos, respectivamente. Juntos, concentraram mais de 36% das ocorrências no Acre. Rio Branco contabilizou 84 registros, enquanto Sena Madureira teve 72, Manoel Urbano 53 e Cruzeiro do Sul 47.

A intensificação das queimadas ocorre durante o chamado verão amazônico, período caracterizado pela redução das chuvas. A combinação entre vegetação seca e uso do fogo em atividades agropecuárias aumenta o risco de incêndios que podem atingir áreas de floresta. A abertura de terrenos e a limpeza de pastagens estão entre as atividades associadas à ocorrência de queimadas na região.

As consequências, no entanto, não ficam restritas à destruição da vegetação. A fumaça contém partículas microscópicas capazes de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea. A exposição pode provocar crises respiratórias, irritação nos olhos e na garganta, além de agravar doenças cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis.

Em Manaus, a Defesa Civil recomendou que a população evite atividades físicas ao ar livre, mantenha a hidratação e utilize máscaras PFF2 quando houver necessidade de exposição à fumaça. A suspensão de atividades escolares também foi adotada para reduzir os riscos aos estudantes e trabalhadores.

O governo federal informou, na sexta-feira (9), que o Ibama já havia extinguido 229 incêndios florestais no Amazonas desde o início da temporada, enquanto equipes permaneciam mobilizadas no combate a outros 20 incêndios ativos. As operações contam com reforço de brigadistas, aeronaves e ações de monitoramento.

Apesar do crescimento recente das ocorrências em estados amazônicos, o Brasil registrou, em setembro, um dos menores totais de focos de calor para o mês nas últimas duas décadas. A diferença entre o comportamento nacional e o avanço das queimadas na Amazônia revela uma distribuição desigual dos incêndios pelo território brasileiro.

Os registros por satélite permitem acompanhar a localização e a frequência das ocorrências, mas não correspondem diretamente à extensão da vegetação destruída. Um mesmo incêndio pode gerar mais de uma detecção, dependendo de sua duração e do deslocamento das frentes de fogo.

A situação de Manaus mostra como o aumento das queimadas pode atingir diretamente a vida urbana, mesmo quando os incêndios ocorrem em áreas distantes. Com milhares de focos acumulados na região amazônica e a continuidade da estação seca, o combate ao fogo e o monitoramento da qualidade do ar permanecem entre as principais preocupações ambientais e de saúde pública na região Norte.

 

Whats-App-Image-2025-10-10-at-16-30-53